04 janeiro 2009

Terrinha



Depois de uma quadra natalícia sem net, um réveillon com operações stop à espreita, lá no recôndito a que chamo «térrinha», é tempo de regressar. Mas regressar a quê? Espere, caro leitor cosmopolita. Tenho a certeza, ou melhor, tenho e sinto a certeza que não é em qualquer lugar mundano por este mundo fora que somos recebidos por quadrúpedes herbívoros amistosos... à saída do avião. Note-se, são amistosos, até porque não se tratam de gazelas nem zebras, portanto é seguro não se preocupar com carnívoros selvagens lá na minha terrinha.

Mas e depois? Posso ir a Sete Rios e ver uns quadrúpedes bem mais exóticos... como leopardos, tigres, e os outros... trés chic! Hum... pois. A diferença é que os quadrúpedes anteriores podem ser vistos sem ter que se pagar por isso. A sua disseminação é tal que, por vezes, até se nos dá vontade de pagar para nos saírem da frente do carro. E dos lados. E também de trás. E sem sujar. Ora aí está uma situação que pode mostrar quem realmente somos, ao nos colocar complexas e difíceis questões, desde a origem do Universo (que por acaso já não é o Big Bang), relativismo moral, teoria do caos, até, por fim, mecânica física da buzina e agora sim, se a quântica de partículas se aplica à energia dispendida com a paciência. Pois, isto agora é que é exótico, e sempre dura mais qualquer coisa, pelo menos mais que um ataque de felinos famintos e aqueles 10 euros de bilhete para o Jardim Zoológico.

Claro que tenho dúvidas. Para além da origem do Universo, também não sei se o bilhete custa 10 euros. Mas sim, são vaquinhas.



19 dezembro 2008

Um lugar no inferno



Plácido, de seu nome, anunciou à sua devota mãezinha, que acabava de comprar um lugar cativo no inferno.

Sem que os santos e anjos do altar do senhor padre da sua paróquia e da freguesia vizinha chegassem a tempo de prevenir uma eventual marcha lenta e sinuosa do INEM pelo vale acima, a senhora viu a luz do candeeiro da sala esfumar-se e voltar a focar enquanto o agente da funerária ali ao lado teve tempo de um rápido esfregar de mãos, de satisfação. Não se conteve. Exclamou com todas as forças que havia guardado nos serões a rezar. Como podia o seu santo, puro e sério filho ter arranjado um lugar no inferno ainda antes de tirar a carta de condução e ter idade para saber o que é a segurança social?

O filho, impávido e sereno, como o seu nome sugere, manteve-se no seu lugar, com ar natural, e informou a dona Rosário que o Benfica jogava amanhã, na Luz.



18 dezembro 2008

Duas notícias



Depois de um furo no pneu, Rómulo vira-se para o companheiro de viagem, enquanto este substituía a borracha inutilizada, e diz:

-- Arquibaldo, tenho duas notícias, uma boa e outra má.

-- Ah sinhe? -- limpando o suor que se deixava escorrer pelo nariz -- Quais sãonhe?

-- A má notícia: acho que o pneu não serve. A boa notícia: acabaram-se as más notícias.


13 dezembro 2008

Só podem estar a gozar comigo




Na página de economia do Metro, podemos ver que, apesar de tudo, não há razões para alarme porque há mais um português excêntrico. O balanço final irá comprovar que os portugueses, todos juntos, até estão a enriquecer. Suponho eu, dado o destaque que o Euromilhões recebe neste diário gratuito. Se cada um de nós ficar excêntrico todas as semanas, daqui a 200 mil anos já todos teremos tido oportunidade de ganhar o prémio. Não estou a brincar, façam as contas. Ah pois, 200 mil anos...

Agora como quem nada quer.. o anúncio está ali e não é por acaso, ou a coincidência é simplesmente peculiar?








Metro, edição de Lisboa (12/12/2008)




12 dezembro 2008

Curtas



A televisão não é programas com intervalos. É publicidade, com programas nos intervalos.


03 dezembro 2008

De quem é o problema?



Quando é que este vídeo vai integrar os seminários e acções de formação nas empresas públicas e função pública?


01 dezembro 2008

Das incúrias lusitanas



Hoje é feriado e a meteorologia não é nada abonatória de festejos. Contudo, provavelmente, foi num dia tão cinzento como hoje que há uns 368 anos atrás os portugueses restauraram a sua independência, revoltando-se contra o domínio filipino que havia existido já tempo demais.

Volvidos quase 900 anos de História enquanto nação, é engraçado notar que este povo humilde ainda recolhe respeito e admiração em muitos pontos do globo. Os japoneses não compreendiam como era possível o nosso vizinho não nos absorver definitivamente pura e simplesmente e mais incrédulos ficavam quando um tratado, uma assinatura num papel, era suficiente para fazer valer esta nossa existência desgovernada e que não se deixa governar. Ora será interessante dizer também que temos as fronteiras mais antigas (ou das mais antigas, não consegui verificar) da Europa. Para não falar da mais antiga aliança ainda em efeito, o tratado de Windsor com o Reino Unido.

Há quem chame à associação de Portugal com a Lusitânia e lusitanos uma "grande obra de engenharia histórica" dado que não se pode afirmar com precisão que somos os sucessores, nem os filhos daquela região pré-romana, que mais tarde se tornaria a província romana do mesmo nome. Mas há algo que não se pode negar, os traços e personalidade daquelas populações, que até foram descritos e registados na época da romanização da península ibérica, são identificáveis hoje em dia quanto mais será difícil negar que não nos corre, ainda que pouco, sangue luso nas veias. Temos mais que 900 anos ora pois...

Do mesmo modo... não, do mesmo modo não, mas talvez com as mesmas consequências, alguém matou Viriato e a Lusitânia "passou à História", e também alguém matou Portugal. E um dia hei-de escrever um livro sobre isso, e não terá nenhum capítulo dedicado à crise económica actual, assunto demasiadamente banal, como a peste a negra entenda-se.

E agora lembrei-me que este post era só para perguntar se alguém sabia que hoje era o dia da Restauração da Independência nacional. Hmm? Alguém? Olhem que os catalães, os galegos e os bascos invejam-nos por isto.



29 novembro 2008

Morangos com Açúcar



Sexta-feira à noite, uma infinidade de hipóteses, possibilidades de algo interessante, produtivo(?), divertido e estimulante para fazer. Assim como umas tantas necessidades para resolver antes. Mas invariavelmente lá estão os meus colegas, a ver a telenovela intitulada de fruta adocicada.

Alguém compreende este meu desespero? (Aqueles marmanjos citados, escusam responder)

Ah mas depois não é que surge um corpo mais desnudo no ecrã da televisão? Pronto, já sei que não adianta discutir.


28 novembro 2008

Uma curva que não lembra ao diabo



E (eu) descobri que uma curva, ou melhor, o conjunto de duas, podem ser ortogonais. Claro, dependendo do ponto de vista e, sobretudo, de abstracção. Aula de Laboratório de Arquitectura III



27 novembro 2008

E foi por isso



Certo dia, Matisse disse a seus alunos para cortarem a língua, se quisessem pintar.

Como Van Gogh não queria ouvir isso, cortou a orelha.


26 novembro 2008

Ensaio sobre a Cegueira



É difícil arrancar-me uma reacção a este filme, baseado na obra do nobel José Saramago. "Brutalíssimo" foi o primeiro adjectivo que me surgiu, não no sentido coloquial da palavra, mas sim no sentido literal, quase. Contudo, não pelo filme em si.

Deixando de parte a componente cinematográfica, cujas reacções dos críticos pude verificar que foram, de resto, agrestes para com a película do realizador Fernando Meirelles, sinto que é importante interpretar e ler além da superfície a coisa que o filme transporta. A profundidade não pode ser inteligida tendo em conta o filme per se. Ora isto para dizer que talvez Saramago tenha tido razão quando recusou por inúmeras vezes ceder os direitos de autor para a realização do filme, por entender que o cinema limita a imaginação. Quantas vezes não nos desiludimos ao ver o filme de um livro que havíamos lido antes?

Saramago afirmou que o filme é violento, pois até a própria vida é uma violência em si mesma. No entanto volto a dizer, não é pela violência, num sentido lato, que adjectivei o filme de "brutalíssimo". Porque em boa verdade, hoje em dia a violência física, emocional e social está, mais do que patente, está gratuita, para não dizer a um nível quase pornográfico. Embora pese a banalização com que imagens e símbolos violentos permeiam o nosso quotidiano, é principalmente a indiferença que lhes prestamos que tornam estas questões em lugares comuns esquecidos.

A palavra «ensaio» assenta que nem uma luva ao título da obra do nobel da literatura. De facto, trata-se de um ensaio que desmonta e disseca o que a civilização oculta sobre a própria e sobre nós enquanto indivíduos e não só. É um reportório deliciosamente constrangedor, e tento dizê-lo da forma menos sórdida possível, porque é deveras complicado elogiar uma análise ou reflexão sobre coisas tão repugnáveis, para nós seres humanos e não meros homo sapiens sapiens.

Quanto ao filme... eu percebo é de culinária e mesmo assim é muito pouco, pelo que posso dizer que deixou-me a pensar mais do que gostaria, mas como uma pitada de sal a mais na comida, isso pode ser bom, como pode ser mau, dependendo do paladar que a degusta.

(nota pessoal: tenho que começar a ver mais comédias, para rir mais vezes e com menos responsabilidade para com o meu umbigo, ora toma!)



19 novembro 2008

Porreiro, tia Manela


Elaborado a partir da imagem vista aqui.


A polémica! A polémica chegou!

Só para me juntar à polémica, claro.



18 novembro 2008

Quando



Quando perdes-te da realidade, quando já não distingues os teus pés do chão que pisas, é quando duvidas da dor que deveras sentiste, quando tocaste a chama férrea, quando ainda assim não acreditavas que não houvesse cicatriz remanescente de quando te atreveste a questionar pela primeira vez quando.